Home Data de criação : 07/10/16 Última atualização : 11/10/17 13:02 / 10 Artigos publicados

Stupid & Contangious

Stupid and contagious  (Stupid & Contangious) escrito em quarta 17 outubro 2007 19:58

I

 

                                                              

  

Um cara tranqüilo.

Sem os ásperos anseios da sociedade. Trabalhar, estudar, dormir, acordar e trabalhar, estudar, dormir e acordar.

Ele se sobressaía em meio às massas. Uma pulga saltitando em um gigantesco elefante de ansiedade.

Tinha seus defeitos, como todos nos temos, mas o fácil acesso a esse cara legal o diferenciava. Definitivamente, um cara tranqüilo.

Não desses conformados, ele fazia mais o tipo “eu penso que”, rebolando no meio das palavras e sempre encontrando explicação para seus pontos de vista.

Um jeitão despojado meio desleixado beirando o abandono. Nem poderia ser diferente. Ainda mais na década de 90. Maltrapilhos do mundo todo zumbiam por todos os cantos. Ainda mais para um jovem com seus quase 22 anos fazendo administração na USF. Empilhando idéias de mundo melhor com impeachment, rock e hot dog’s.

 

Revolucionário a todo instante, um coadjuvante empolgado com a evolução e libertinagem dos movimentos por ele nunca vistos.

Não bastava degustar desse vinho envelhecido por alguns anos de adolescência, era preciso trancar-se no porão e não se esconder pela timidez, nem mesmo ficar sentado esperando a velhice ou os 30 chegarem.  

Neste caso, o “libertino” era apenas uma palavra e ele nem fazia questão de entendê-la, bastava movimentá-la, dançando bêbado sua liberdade em bares próximos da faculdade.

 

Quem viveu as efervescências de 1992 sabe o que esta rolando aqui.

Davi free-lance. Pela manhã um programador de Access, aprendeu no escritório de seu pai fazendo programas de controle de clientes, uma velha imobiliária na Dom Aguirre, minúscula.

A partir das 13:00 um auxiliar de enfermagem na Sta Casa de Misericórdia. Sangue e vômitos em jato. Pacientes no jardim. Ele socorrendo epiléticos, carregando as baterias de hemofílicos. Nas folgas catando a auxiliar de enfermagem na troca de turno, os materiais de limpeza espremidos no cubículo da sala de limpeza emprestavam o pouco espaço para suas libertinagens esterilizadas, cheirando acetona e benzina, seu gosto do prazer.     

Depois, as 19:00, a administração, o sonho da mamãe.

Quatro horas empurradas pela fome e aliviadas pela conversa politicamente revoltada dos universitários. Todos na cantina embalados pelos assuntos mais clichês, de Mandela a formação da União Européia, tentando não parecer convencionais. Um avassalador rodamoinho que inflava cada vez mais o sono deste cara legal.     

Bocejos a parte, no seu quarto depois da faculdade, um som pra relaxar. Uma radio podre, que tocava todo tipo de podreira.

Davi vez por outra sintonizava imaginando encontrar hora ou outra algum som anestesiante. Mas era difícil. Na grande maioria das vezes melava-se com pérolas como “The One” de Elton Jonh, para ele “um sono bem produzido”, dizia olhando

pro teto.

 

No dia seguinte a alegria no ar. A transmissão radiofônica da área Central era bem superior a dos Altos do Lourenção.

Um rádio Phillips com toca-fitas espalhava o silencioso clima do escritório, deixando uma chibatada resmungando, passando um leve tremor pelo assoalho de madeira, desses arrepios que colam sapatos no chão e trepidam as cabeças. Um refrão que da sala de entrada era um som ambiente. Mas abrindo a porta da pequena sala de Davi, chocava-se o rosto nos versos.

 

Talvez as palavras mais violentas de 1992. Era  possível ser o irresponsável mais pancada do São Lourenço estando ali na região Central escutando “Smells Like Teen Spirit”. 

Continua...        

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