Home Data de criação : 07/10/16 Última atualização : 11/10/17 13:02 / 10 Artigos publicados

Basquiat, traços de uma vida  (Filmes & Arte) escrito em sexta 19 outubro 2007 19:27

Blog de manifesto :manifesto, Basquiat, traços de uma vida

“Same old shit” 

 

Basquiat, um ritualista viajando imperceptível pelas vielas sujas de uma cidade repleta de supostos vencedores. Um profeta da arte marginal, ignorante, o maravilhoso balde de tinta de sua mente ligada nos contornos tortos do cotidiano dos desmazelados mendigos e de esnobes que cambaleavam nos seus traços.  Uma caixa de papelão em uma praça, um sono lisérgico que talvez fosse tão colorido, contido e explosivo como foi sua imagem em sua breve e espetacular passagem pelos muros da arte.

  

Nascido e criado no Brooklyn, Samo, como se auto intitulava, ou “SAMO shit” (same old shit, que nada mais é que "a mesma merda de sempre"). Ele  provou como artista negro, com traços caribenhos que a arte não escolhe etnia. Ele dormia em praças, um desafortunado jovem, drogado, imperceptível. Mas a fama o perseguia. Em um futuro bem proximo faria participações constantes em um programa de teve, montaria uma banda chamada “Gray”.

  

Teria sido sua descoberta ainda quando criança, no “Guernica” de Picasso uma marca em sua mente desconectada? Talvez.  Mas é certo que as ruas imundas de Nova Iorque jamais revelarão oque este artista queria quando deixava em seus muros grafites muito bem conectados, tudo criado na mente de Samo. As ruas tornavam-se uma caverna enorme, onde ele, anônimo, deixava suas letras, paginas de sua vida.

 

Portas e muros

  

Jean Michel Basquiat poderia muito bem ter passado despercebido pelas ruas da arte contemporânea, e sobreviver, ou morrer,  sem remorso algum, ignorando o descaso. Ele não precisava de muito para criar. Uma porta ou um pedaço qualquer madeira servia-lhe de tela, mesmo uma geladeira poderia ser grafitada se tornando uma peça única. Criar sobre papel fenomenais mostras de sua personalidade artística.  Peças exclusivas seriam também aquelas pessoas em que ele depositou sua confiança.

  

Diferente de seus excessos era o trato que dispensava a seus admiradores. Basquiat nunca deu muita atenção aos abutres de plantão, mesmo seus amigos próximos passavam indiferentes aos seus olhos, quer pelas viagens que as drogas lhe proporcionavam quer pela preocupação em fazer-se ser notado e não dispor dos meios sociais para tanto. Um sujeito que aprendeu a não confiar em seus próximos, a ser apenas mais uma pessoa na cadeia evolutiva da sociedade. Assim, era preciso criar a oportunidade. Rabiscar todos os cantos com idéias insólitas, mostrar com curtas palavras todos os seus infortúnios.

  

Vida na tela 

 

Com uma trilha sonora limpa sem excessos, logo de cara na primeira cena se nota que é comovente e fiel a vida de Samo. O som vai direto para dentro do protagonista com uma certa melancolia. Filho, mãe e uma obra de Picasso.  Contando com interpretações sublimes e inspiradas de Jeffrey Whight, David Bowie, Benicio Del Toro e da bela Clair Forlani entre outros.  O filme “Basquiat, traços de uma vida” transporta o telespectador para o lado dramático e alucinante da vida de Basquiat. Quando anônimo e depois como personalidade.  É possível imaginar pelas lentes do diretor estreante Julian Schnabel um pouco do que foi sua precoce e conturbada carreira.

  

Descoberto pelo poeta, critico de arte e afetado Rene Ricard, um tipo de xamã de artistas desconhecidos, em uma das tantas festas chapadas que Samo costumava freqüentar. Uma espécie de refugio underground do submundo artístico, onde as drogas se constituíam a maior arte, o resto era conseqüência, nem havia tantos talentos assim.

  

A relação conturbada de amor e ódio entre descobridor e descoberto mostra desde o inicio altos e baixos. O jovem Samo vê as futilidades e fragilidades das relações humanas que vão abruptamente rompendo seus laços com Rene, se sente incontrolável, pois sabe que tem vícios que o controlam independentemente do amor e do ódio. A fama cobrava seu preço.

  

O filme nos arrasta pra valer quando o visionário da pop-art Andy Warhol entra em cena, tirando totalmente o jovem Basquiat do limbo. Basquiat percebe que atrás de uma imagem cheia de egocentrismo existe uma personagem extremamente acessível e vulnerável. E que talvez a imagem plastificada criada em torno de Warhol seja apenas parte de um marketing viável aos olhos deste visionário.

 

Assista. Compre um vinho, ou qualquer outra coisa que te faça sentir desconectando, relaxe. Foi assim que Samo costurou sua arte no mundo, fazendo os seus observadores ficarem ligados, enquanto ele se desligava do mundo.

 

 

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