“Same
old shit”
Basquiat, um ritualista
viajando imperceptível pelas vielas sujas de uma cidade
repleta de supostos vencedores. Um profeta da arte marginal,
ignorante, o maravilhoso balde de tinta de sua mente ligada nos
contornos tortos do cotidiano dos desmazelados mendigos e de
esnobes que cambaleavam nos seus traços.
Uma caixa de papelão em uma praça, um sono
lisérgico que talvez fosse tão colorido, contido e
explosivo como foi sua imagem em sua breve e espetacular passagem
pelos muros da arte.
Nascido e criado no
Brooklyn, Samo, como se auto intitulava, ou “SAMO shit”
(same old shit, que nada mais é que "a mesma merda de
sempre"). Ele provou como artista negro, com
traços caribenhos que a arte não escolhe etnia. Ele
dormia em praças, um desafortunado jovem, drogado,
imperceptível. Mas a fama o perseguia. Em
um futuro bem proximo faria participações
constantes em um programa de teve, montaria uma banda chamada
“Gray”.
Teria sido sua
descoberta ainda quando criança, no “Guernica”
de Picasso uma marca em sua mente desconectada?
Talvez. Mas é certo que as ruas imundas
de Nova Iorque jamais revelarão oque este artista queria
quando deixava em seus muros grafites muito bem conectados, tudo
criado na mente de Samo. As ruas tornavam-se uma caverna enorme,
onde ele, anônimo, deixava suas letras, paginas de sua
vida.
Portas e muros
Jean Michel Basquiat
poderia muito bem ter passado despercebido pelas ruas da arte
contemporânea, e sobreviver, ou morrer, sem remorso
algum, ignorando o descaso. Ele não precisava de muito para
criar. Uma porta ou um pedaço qualquer madeira servia-lhe de
tela, mesmo uma geladeira poderia ser grafitada se tornando uma
peça única. Criar sobre papel fenomenais mostras de
sua personalidade artística. Peças
exclusivas seriam também aquelas pessoas em que ele
depositou sua confiança.
Diferente de seus
excessos era o trato que dispensava a seus admiradores. Basquiat
nunca deu muita atenção aos abutres de
plantão, mesmo seus amigos próximos passavam
indiferentes aos seus olhos, quer pelas viagens que as drogas lhe
proporcionavam quer pela preocupação em fazer-se ser
notado e não dispor dos meios sociais para tanto. Um sujeito
que aprendeu a não confiar em seus próximos, a ser
apenas mais uma pessoa na cadeia evolutiva da sociedade. Assim, era
preciso criar a oportunidade. Rabiscar todos os cantos com
idéias insólitas, mostrar com curtas palavras todos
os seus infortúnios.
Vida na
tela
Com uma trilha sonora limpa sem
excessos, logo de cara na primeira cena se nota que é
comovente e fiel a vida de Samo. O som vai direto para dentro do
protagonista com uma certa melancolia. Filho, mãe e uma obra
de Picasso. Contando com
interpretações sublimes e inspiradas de Jeffrey
Whight, David Bowie, Benicio Del Toro e da bela Clair Forlani entre
outros. O filme “Basquiat,
traços de uma vida”
transporta o telespectador para o lado dramático e
alucinante da vida de Basquiat. Quando anônimo e depois como
personalidade. É possível imaginar pelas lentes
do diretor estreante Julian Schnabel um pouco do que foi sua
precoce e conturbada carreira.
Descoberto pelo poeta, critico de
arte e afetado Rene Ricard, um tipo de xamã de artistas
desconhecidos, em uma das tantas festas chapadas que Samo costumava
freqüentar. Uma espécie de refugio underground do
submundo artístico, onde as drogas se constituíam a
maior arte, o resto era conseqüência, nem havia tantos
talentos assim.
A relação conturbada
de amor e ódio entre descobridor e descoberto mostra desde o
inicio altos e baixos. O jovem Samo vê as futilidades e
fragilidades das relações humanas que vão
abruptamente rompendo seus laços com Rene, se sente
incontrolável, pois sabe que tem vícios que o
controlam independentemente do amor e do ódio. A fama
cobrava seu preço.
O filme nos arrasta pra valer
quando o visionário da pop-art Andy Warhol entra em cena,
tirando totalmente o jovem Basquiat do
limbo. Basquiat percebe que atrás de uma
imagem cheia de egocentrismo existe uma personagem extremamente
acessível e vulnerável. E que talvez a imagem
plastificada criada em torno de Warhol seja apenas parte de um
marketing viável aos olhos deste
visionário.
Assista. Compre um vinho, ou qualquer outra coisa que te
faça sentir desconectando, relaxe. Foi assim que Samo
costurou sua arte no mundo, fazendo os seus observadores ficarem
ligados, enquanto ele se desligava do mundo.